Por que você acabou com tudo? Se bem que você já tinha destruído todos os nossos sonhos, pelo menos os meus, no dia que você me agrediu fisicamente.
Bem, as agressões psicológicas sempre existiram desde os nossos primeiros encontros, mas aconteciam de uma forma diferente. Eram envoltas em cuidado, proteção e preocupação com o meu bem-estar, que mais tarde virou controle sobre mim. E por último virou obsessão em rastrear os meus passos todos os minutos do dia. Você tomou posse de mim. E me consumiu.
Minha vida ao seu lado tornou-se sufocante. Aos poucos o colorido foi desbotando, e não via mais sabor em viver ao seu lado. Lembro das palavras rudes, dos primeiros gritos e palavrões, empurrões, puxadas de cabelo e a escalada desenfreada de agressividade pela qual tive que passar.
Sofria calada. Depois vomitava os desabafos em cima das amigas, colegas no trabalho e familiares. E sempre ouvia os mesmos conselhos. Você sabe bem quais eram. Imagino que saiba.
Não conseguia mais respirar. Nem tampouco cabia no espaço que você destinou a mim. Um lugar pequeno, abafado, em que deveria pedir sua permissão para existir. Até que não segurei mais. Não deu.
A minha escolha você sabe qual foi. E quando foi. Escolhi partir, porque temia pela minha vida. Mas você não me deixou seguir em paz. Não sei se foi pelo seu egoísmo, pelo seu autoritarismo, pela sua necessidade de dar a última palavra em tudo. Só entendi que quem deveria decidir o que fazer era você. E a mim restava chorar pela última vez.
Apenas posso lamentar, um dia, ter cruzado o seu caminho, pois me trouxe ao pior desfecho possível. Lamento por tudo que podia ter dado certo, pela vida que poderíamos ter construído juntos. Sofro pelos filhos que não tivemos, mas poderíamos ter tido. Por uma família que não fomos. Mas vejo que nunca tivemos uma chance. Não era para ser com você. Pena que eu não percebi isso antes…
Sobram as lágrimas derramadas pelos meus pais e amigos sobre o meu corpo inchado e inerte no caixão. Você me tirou deles. Foi de uma forma covarde, traiçoeira, provando que o seu amor por mim era doentio. Não era amor de verdade. Você preferiu me arrancar desta vida a me deixar sair da sua.
Ao me matar você acabou com qualquer vislumbre de esperança e expectativas de futuro, não apenas para mim, mas comprometeu o seu próprio destino. Suas mãos nunca mais estarão limpas, sua mente nunca mais será livre. Você se tornou o seu prisioneiro e o seu maior inimigo. E viverá mergulhado no seu narcisismo nas profundezas de uma vida sem fim. Sem brilho. Sem alma. Sem nada.
Homenagem às milhares de mulheres que foram mortas por seus (ex)parceiros. O número de vítimas de feminicídio não pára de aumentar anualmente. Precisamos mudar a educação dos nossos meninos!

A dor de uma mulher tem que ser de todas nós!
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