Muitas vezes a vida toma rumos inesperados que fogem às trajetórias preestabelecidas por nós. Até que ponto é válido planejar e seguir fielmente um cronograma pautado pelos nossos desejos e crença do que seria melhor para nós mesmos? O que sabemos sobre esta louca aventura que é a vida?
A única garantia nessa vida é que não há garantias para nada. As regras são quebradas cada vez com mais facilidade. Com o rápido fluxo de informações, não há como nos acomodarmos a ideias que passam de novas a antigas em um espaço cada vez mais curto de tempo. As demandas atuais exigem que estejamos abertos a ressignificar as nossas escolhas a todo instante. O embate constante entre o certo e o errado acontece para chacoalhar nossas posições.
As contradições fazem parte da condição humana, e para manter um equilíbrio entre o que queremos fazer e o que devemos fazer é preciso exercitar uma postura menos egoísta e avaliar o impacto das nossas ações na nossa vida e nas dos demais ao nosso redor. Portanto todos compartilhamos uma porção de responsabilidade sobre o destino do homem.
Não devemos passar a vida evitando enfrentamentos com questões mais delicadas que nos rodeiam, pois hoje podemos lançar mão de um conhecimento maior que nos possibilita resolver dilemas complexos com mais autonomia, e menos vitimismo.
Devido ao meu histórico familiar recheado de casos de câncer, resolvi procurar uma oncogeneticista para um aconselhamento genético. Assim foi sugerido que eu fizesse um exame de sangue chamado Teste Genético para Câncer Hereditário Extendido, responsável pelo rastreio de diversos tumores hereditários, além de estimar as probabilidades de seu desenvolvimento devido à carga genética de cada pessoa. Tal exame não é feito através do SUS, e a única opção é desembolsar um valor, ainda alto, para realizá-lo em laboratório particular.
O importante é que, fazer este exame para a detecção de alterações no DNA e, posteriormente, obter o resultado, no meu caso, uma mutação no gene BRCA2, de certa forma me fortaleceram para que eu tomasse as rédeas da minha vida. Pelo menos agora sinto que a minha história não está completamente à mercê de uma herança genética.
Aprendi que o gene BRCA2 (BRCA = Breast Cancer – Câncer de Mama) é responsável por proteger órgãos, como mama e ovário, contra o câncer. No meu caso esse gene não funciona, o que torna meu organismo muito mais vulnerável ao desenvolvimento das células cancerígenas, especialmente nesses órgãos.
Não é fácil chegar a uma conclusão, pois seja ela qual for não haverá volta. No meu caso, optei por fazer uma Mastectomia bilateral e uma histerectomia total com salpingo-ooforectomia bilateral (retirada do útero, trompas e ovários). Precisei refletir muito, pesar os prós e os contras, discutir as consequências das cirurgias, observar o meu corpo, levando em consideração a minha idade, necessidades e o melhor para o meu bem-estar. Precisei lidar com as questões psicológicas intrínsecas ao meu dilema. Para isso foi importante discriminar os sentimentos que surgiram ao longo do processo.
Vejo o defeito no meu DNA também como um presente dos meus antepassados. Algo para me lembrar sempre quem sou e de onde venho, onde estão fincadas as minhas raízes. Posso dizer que, por tudo isso, sinto um misto de gratidão e empoderamento. Gratidão por pertencer a uma família que me educou com amor e me ensinou o significado de “ter princípios”, algo que para mim vai muito além da minha falha genética. E empoderamento por poder fazer as minhas escolhas. Fazer a retirada de alguns órgãos do meu corpo, como tratamento profilático, indica uma decisão de grande responsabilidade, mas sobretudo uma forma de cuidado para comigo mesma.
Hoje, graças ao avanço na área da Genética, pude adotar medidas que fatalmente alterarão o curso da minha trajetória.
Deixar cortar a carne e remover partes do corpo, especialmente as que evocam feminilidade, não é assunto para bate papo. É tema para pensar muito. É saber que nada será como antes. E que será urgente ressignificar a vida, rever a sua relação com o corpo e o prazer, pois a mudança será grande e terá implicações.
Sinto que novos tempos virão, e que eles serão mais leves. Ou talvez tenha percebido que o segredo é olhar com maior leveza para os nossos dilemas. Afinal a minha escolha foi pela vida. Que ela seja mais longa, plena e saudável possível!
As bençãos podem chegar até nós por caminhos inesperados… a vida é assim, cheia de reviravoltas. O que o tempo leva, ele traz na hora certa!
O trecho a seguir foi extraído do site http://www.minhavida.com.br:
- Mutações genéticas: a mulher possui uma mutação no gene BRCA1 ou BRCA2, ambos indicativos de alto risco para câncer de mama. Para descobrir essa mutação, é necessário fazer um exame de mapeamento genético, no qual é retirada uma amostra de sangue ou saliva para análise do DNA em laboratório. Os exames genéticos devem ser considerados, principalmente por pacientes onde há uma indicação muito precisa, com forte histórico familiar, como por exemplo as mulheres que tem casos de câncer de mama e de ovário na família e são de ascendência judaica Ashkenazi.
- Estas mutações estão associadas ao tipo de câncer de mama mais agressivo que existe, que é conhecido como triplo negativo. O câncer da mama triplo negativo acontece quando a mulher não apresenta três biomarcadores (proteínas que controlam as funções da célula) presentes em outros tipos de câncer: os receptores de estrógeno (ER), progesterona (PR) e HER2 (responsável pelo crescimento das células). Outros tipos de câncer de mama podem ser identificados pela presença ou ausência desses biomarcadores, bem como local da mama atingido pelo tumor.



……………………………………………… leve, feliz! 
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