Pinóquio e a Educação que Queremos

Sou do tempo em que havia duas grafias para uma só palavra: História e Estória. A diferença entre elas estava no seu significado. Enquanto a primeira dizia respeito somente aos fatos históricos mundiais, a segunda se ocupava das estórias inventadas por autores dotados de imaginário fértil de todo o mundo. Hoje já não há mais…


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Sou do tempo em que havia duas grafias para uma só palavra: História e Estória.

A diferença entre elas estava no seu significado. Enquanto a primeira dizia respeito somente aos fatos históricos mundiais, a segunda se ocupava das estórias inventadas por autores dotados de imaginário fértil de todo o mundo. Hoje já não há mais esta distinção… Não se escreve mais Estória, somente História.

Não é algo para se pensar? Literalmente o mundo das estórias anda mais empobrecido, não é?

Bem, uma famosa e atemporal estória – vou escrever assim e tirar proveito de uma certa licença poética – que gosto muito é a do Pinóquio. Quem não conhece o menino de pau que sonha em ser um menino de carne e osso?

Também gosto muito, mas muito mesmo, do nosso consagrado autor, Rubem Braga, que em seu livro “ Estórias de quem gosta de ensinar ” escreveu um texto usando Pinóquio para falar metaforicamente sobre Educação no nosso Brasil.

O texto PINÓQUIO ÀS AVESSAS  propõe uma análise mais profunda sobre a forma como a Instituição Escola olha para seus alunos e os avalia. Sobre o que é ensinado e quais são os métodos de aprendizagem utilizados. Rubem Braga vai mais além…

Por isso o texto abaixo vale a pena ser lido e comentado. Ser até pauta de reunião para reflexão entre professores, coordenadores e mais.

Talvez o ser humano ainda aprenda mais facilmente com as Estórias do que com as Histórias… Será que a escola dá conta disso e pode fazer algo para compreender melhor o seu aluno?

                                                                                                                              

PINÓQUIO ÀS AVESSAS

Não conheço estória que combine malandragem psicanalítica com convicção pedagógica como Pinóquio.

Depois de levar a criança a se identificar com um boneco de pau, a trama progride proclamando que é necessário ir à escola para se virar gente. Caso contrário o destino inevitável é virar burro, com rabo, orelhas, zurros e tudo o mais que pertence à burrice. Claro que este é um golpe desonesto. Seria necessário dizer com clareza aquilo que aqui ficou simplesmente mal dito, contando sobre o destino invertido daqueles que eram de carne e osso ao entrar na escola e só receberam diplomas depois de se transformarem em bonecos de pau.

Alguém já devia ter dito estas coisas às crianças: é uma exigência da honestidade. Mas ninguém até agora se atreveu. A razão? Parece que dentro de cada um de nós mora um Gepeto. A inversão do script poderia parecer uma tentativa de corromper a juventude, e o inovador acabaria por ser enxotado, como se fosse parte do bando de espertalhões que desviou Pinóquio do sagrado caminho em busca da humanidade, o caminho da escola.

Quero tomar este risco. Ainda vou inventar a tal estória. A moral já está pronta: por vezes, a maior prova de inteligência se encontra na recusa em aprender.

Sei que esta proposta é insólita e que o leitor, meio Gepeto sem o saber (como eu também, quando mando meus filhos à escola), haverá de me pedir explicações.

Confesso que não tenho muitas evidências em minhas mãos. Ainda não fiz as pesquisas e nem fichei as notas de rodapé. Mas os meus pensamentos se metamorfosearam em uma parábola que passo a contar:

O rei Leão, nobre e cavalheiro, resolveu certa vez que nenhum dos seus súditos haveria de morrer na ignorância. Que bem maior que a educação poderia existir? Convocou o urubu, impecavelmente trajado em sua beca doutoral, companheiro de preferência e de churrascos, para assumir a responsabilidade de organizar e redigir a cruzada do saber. Que os bichos precisavam de educação, não havia dúvidas. O problema primeiro era o que ensinar. imagesQuestão de currículo: estabelecer as coisas sobre as quais os mestres iriam falar e os discípulos iriam aprender. Parece que havia acordo entre os participantes do grupo de trabalho, todos os urubus, é claro: os pensamentos dos urubus eram os mais verdadeiros; o andar dos urubus era o mais elegante; as preferências de nariz e de língua dos urubus eram as mais adequadas para uma saúde perfeita; a cor dos urubus era a mais tranquilizante, o canto dos urubus era o mais bonito. Em suma: o que é bom para os urubus é bom para o resto dos bichos. E assim se organizaram os currículos, com todo o rigor e precisão que as últimas conquistas da didática e da psicologia da aprendizagem podiam merecer. Elaboraram-se sistemas sofisticados de avaliação para teste de aprendizagem. Os futuros mestres foram informados da importância do diálogo para que o ensino fosse mais eficaz e chegavam mesmo, vez por outra, a citar Martin Buber. Isto tudo sem falar na parafernália tecnológica que se importou do exterior, máquinas sofisticadas que podiam repetir as aulas à vontade para os mais burrinhos, e fascinantes circuitos de televisão. Ah! que beleza. Tudo aquilo dava uma deliciosa impressão de progresso e eficiência, e os repórteres não se cansavam de fotografar as luzinhas piscantes das máquinas que haveriam de produzir saber, como uma linha de montagem produz um automóvel. Questão de organização, questão de técnica. Não poderia haver falhas.

Começaram as aulas, de clareza mediana. Todo mundo entendia. Só que o corpo rejeitava. Depois de uma aula sobre o cheiro e o gosto bom da carniça, podiam-se ver grupinhos de pássaros que discretamente (para não ofender os mestres) vomitavam atrás das árvores. Por mais que fizessem ordem unida para aprender o gingado do urubu, bastava que se pilhassem fora da escola para que voltassem todos os velhos e destestáveis hábitos de andar. E o pavão e as araras não paravam de cochichar, caçoando da cor dos urubus: “ Preto é a cor mais bonita? Uma ova …”

E assim as coisas se desenrolaram, de fracasso a fracasso, a despeito dos métodos cada vez mais científicos e das estatísticas que subiam. E todos comentavam, sem entender: “ A educação vai muito mal …”

Gosto de estórias porque elas dizem com poucas palavras aquilo que as análises dizem de forma complicada. Todo mundo reclama do fracasso da educação no Brasil. Os alunos de hoje não são como os alunos de antigamente. Nem mesmo sabem escrever. Que dizer do aprendizado da Ciência, esta coisa tão importante para o projeto Brasil grande potência? E eu fico a me perguntar se o problema não está justamente aqui. Um bem-te-vi que consiga ser aprovado com distinção na escola dos urubus (quem sabe com um daqueles Q.I.s de causar inveja?) pode ser muito inteligente para os urubus. Bem-te-vi é que ele não é. Não passa de um degenerado. E aqui volto à moral da estória do Pinóquio às Avessas, que ainda vou escrever, aquela mesma que causou o espanto: por vezes, a maior prova de inteligência se encontra na recusa em aprender.

É que o corpo tem razões que a didática ignora. Vomitar é doença ou é saúde? Quando o estômago está embrulhado, aquela terrível sensação de enjoo, todo mundo sabe que o dedo no fundo da garganta provocará a contração desagradável, mas saudável. Fora com a coisa que violenta o corpo! Nietzsche dizia em certo lugar (não consegui encontrar a citação) que ele amava os estômagos recalcitrantes, exigentes, que escolhiam a sua comida, e detestava os avestruzes, capazes de passar em todos os testes de inteligência, por sua habilidade de gerir tudo. Estômago exigente, capaz de resistir e de vomitar. Em cada vômito uma denúncia: a comida é imprópria para a vida.

E eu me pergunto se este tão denunciado e tão chorado fracasso da educação brasileira não será antes um sinal de esperança, de que continuamos capazes de discernir o que é bom para o corpo daquilo que só é bom para o lucro. Esquecer depressa: não é esta a forma pela qual a cabeça vomita a comida de urubu que lhe foi imposta? Cursinho vestibular, exame vestibular: banquete de urubu? E fácil saber. Que se sirva a mesma comida, seis meses depois.

Uma ideia a ser explorada: para educar bem-te-vi é preciso gostar de bem-te-vi, respeitar o seu gosto, não ter projeto de transformá-lo em urubu. Um bem-te-vi será sempre um urubu de segunda categoria. Talvez para se repensar a educação e o futuro da Ciência, devêssemos começar não dos currículos-cardápios, mas do desejo do corpo que se oferece à educação. É isto: começar do desejo…

 

2 respostas

  1. Avatar de Leninha IPad
    Leninha IPad

    Ótimo! Mto oportuno. Bj Leninha

    Enviado via iPad Leninha

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    1. Avatar de omundodacrica

      Obrigada, Leninha! Grande beijo!

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