Poderíamos discutir vários aspectos do filme, mas faremos um recorte para seguir um caminho, e assim nos concentrar em alguns pontos desta produção.
Este é um filme poético e cheio de imagens fortes protagonizado pelo intenso Ricardo Darín. Seus olhos verdes penetrantes revelam a vida difícil de Vergara Grey, que recém saído da prisão, encontra-se cansado e sem perspectivas. Em uma tentativa em vão, busca recuperar o tempo perdido ao lado de sua família. Mas, quando um cristal se quebra, não há mais como juntar seus pedacinhos e colar tudo de novo. O momento já passou…
Angel, um jovem ex-presidiário, que fora injustiçado, sai à procura de Vergara Grey para por em prática um plano de roubo de um cofre. Ele não tem medo de se arriscar e de lutar pelos seus sonhos. Acaba se apaixonando por Victoria, uma jovem muda e desamparada que conhece andando pelas ruas da cidade. Resolve, então, protegê-la contra todas as maldades do mundo, tornando-se uma espécie de anjo da guarda da moça. Unidos pelo acaso sentem-se mais corajosos para seguir suas vidas juntos.
Uma história ambientada no Chile, pós Pinochet, no momento em que a democracia está se instalando por lá. Apesar do filme se passar nesse país, alguns elementos, mencionados sutilmente, tais como: a lã peruana, a fuga para a Argentina, a participação da atriz-bailarina brasileira, Marcia Haydee, e talvez até mesmo os nomes japoneses repetidos diversas vezes (alusão ao ex-presidente nipo-peruano, Alberto Fujimori?), nos levam a pensar que o autor talvez queira abordar a realidade do fim da ditadura em toda a América Latina como um período ainda em transição e cheio de contradições.
Os ambientes sombrios são o palco para o encontro desses três personagens. A luz, cada vez mais clara, à medida em que a história vai se desenrolando, e a música de fundo ligada às belas cenas de dança e dos passeios à cavalo, vão aos poucos mostrando o fortalecimento da ligação entre os três. Os espaços físicos fechados, como o presídio, o elevador, a pequena casa de Victoria, o mísero hotel onde vive Vergara Grey, são pouco a pouco substituídos por cenas nas ruas, nos jardins e nas belas paisagens andinas.
Percebemos os personagens unidos pelo desejo da liberdade, da liberdade de expressão, da liberdade de ir e vir… Da liberdade de atravessar as Cordilheiras… Mas para isso, precisam se libertar de um passado escuro, a fim de construir um futuro diferente.
A doce bailarina, Victoria, que perdera a voz, como uma nação que fora silenciada pela ditadura, encontra na dança uma forma de expressão, de dar vazão aos sentimentos reprimidos, à dor mais profunda que esvazia um ser humano. Parecia haver um abismo negro intransponível, um sofrimento de tantos anos guardado, assim como um povo impossibilitado de se expressar, ainda sofrido e desesperançado, não consegue se soltar das amarras.
Estas emoções todas, trazidas à tona tão fortemente pelo filme, mostram a riqueza da história e transmitem a verdade de uma época sombria que ficou para trás, mas que deixou muitas cicatrizes. E que apesar de tudo, ainda existe a esperança: não é por acaso que um condor macho aparece no fim do filme, afinal ele é 0 símbolo clássico da liberdade.
* Texto escrito com a colaboração de Helena Sazalis
Gênero: Drama
Elenco: Ricardo Darín, Abel Ayala, Miranda Bodenhofer, Ariadna Gil , Julio Jung, Mario Guerra, Marcia Haydée, Luis Dubó
Direção: Fernando Trueba
Duração: 127 min.
Classificação: 16 Anos
Distribuidor: Paris Filmes
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